
O silêncio era interrompido pelos carros a passar lentamente, cautelosamente, sem perturbar os restos da chuva carbonizada pelo egoísmo e desenvolvimento (do mesmo) humano. O mau tempo, a lama e os sobretudos cinzentos prolongavam-se desde a semana passada, e esta tarde não ousara em ser diferente. A chuva passara por instantes, as nuvens graves e preguiçosas não faziam o favor de se moverem, permanecia a certeza de que iria voltar a chover, os sobretudos, chapéus, mau humor, a lama, o peso do ar e a melancolia voltariam com ela.
A sala era pequena, não caberiam ali mais de quinze pessoas, e se as mesmas aí coubessem isso custaria muitos empurrões, brutalidades e palavras agradáveis. Um candeeiro de luz mansa e escura que lembrava a luz do fogo, mas numa versão mais fria e desconfortável iluminava, desfavorecendo as paredes pintadas de castanho-avermelhado. Há oito metros da entrada encontrava-se então a janela aberta da qual nascia o vento e o som quieto dos carros, estes embatiam nos cortinados de veludo que mais uma vez não fugiam do quadro geral, emitindo um forte amarelo. Um bocado mais perto, no canto, a televisão estava ligada num programinha comercial, onde as personagens moviam-se e falavam, não emitindo nenhum som que perturbasse o cansaço da sala.
Nos sofás frios e beges que se mantinham nos lados opostos da sala, estavam sentados eles: ela, sentada no meio do sofá, com pernas cruzadas, segurando na ponta do dedo indicador e do dedo do meio um cigarro aceso, olhando fixamente para ele com um olhar presente, imperturbável, carinhoso mas paradoxalmente frio, indiferente, paciente e controlado; os seus cabelos de trigo despenteados pela humidade pousavam delicadamente sob os seus ombros cobertos por uma camisola azul, o que a punha em contraste com tudo o que a rodeava entre as quatro paredes castanhas. Vestira-se assim propositadamente, lembrando-se do fogo que a sala: o ar, a luz, as paredes emancipavam. A sua boca aspirava a nicotina, e em simultâneo os seus olhos chamavam-no, pediam que ele, sentado na ponta do seu sofá enlaçando o queixo com a sua mão morena, olhasse para ela com olhos de quem vê e percebe, de quem não vive nas nuvens, de quem sabe que princesas puras não existem, de quem sabe que tudo é um jogo. Ela – sentada, o olhar táctico, os movimentos pensados e o cigarro simbólico gritavam “Tu és este cigarro, porra! A cada passa que dou tiro o que preciso, quero e o que me apetece. E a cada passa que dou menos sinto o teu efeito.” E dando a última passa rematou:
- E eis que acabaste. - Lentamente, a loira libertou o fumo por entre lábios finos, deitou fora o que restava do cigarro, nunca tirando os olhos dele, e ele, perturbado e nervoso não conseguia perceber o que queria dizer ela ao concreto.
- Queres mais um cigarro? – Percebia ele que a fuga dela não tardaria, tremendo mas não baixando os olhos, acusando.
Ela levantou-se, e, dando-lhe um leve beijo, fechou a porta atrás de si. É só um jogo para ela: solitária, fora de todos eles e nunca pertenceu a nenhum, necessária e desnecessária ao mesmo tempo. Sempre silenciosa, talvez porque não tinha palavras, ou talvez porque não ache que haja algum sentido em responder.
Dedicado ao Q. Parabéns @ <3