Tudo estava escuro, conseguia sentir o vazio com cada milímetro do meu corpo. Agora, o que restava dele era este vazio. Este vazio que não conseguia esquecer nem preencher. Continuava a ver tudo claramente… O campo, cada erva esmagada pelos nossos pés, cada pedrinha que resistira aos nossos corpos, cada flor que outrora fora passada pela minha pele, todas elas estavam murchas. E eu estava a murchar com elas. Via todos os pequenos e castanhos olhos dos pardais, a olharem para mim, com que apoiando-me com o seu olhar “É o melhor a fazer. Tens que seguir em frente”. É melhor?! O meu coração batia, no entanto eu sentia que já não estava viva. Não sentia o fogo dentro de mim, e muito menos os tremores de nervosismo que sentira quando o batimento do meu coração não era apenas físico.
Abri os olhos. Estava de volta ao meu pequeno quarto. E pela primeira vez em tanto tempo não estava arrependida em acordar. Peguei no maço de cigarros “Black Devil” da minha gaveta da secretária e tirei um. Abri a janela e o frio que senti abraçou-me com que dando os parabéns por estar de volta ao meu mundo. Acendi o cigarro e senti o fumo doce dentro da minha boca. Não bastava, nem perto. Dei a maior passa que conseguia dar, a espera que o fumo fosse a cura de tudo o que sentia e não conseguia fazer voltar e de seguida os meus pulmões rebentaram, desatei a tossir. Parecia que todos os órgãos iam fazer um passeio cá para fora. A porta abriu. No entanto consegui mandar o cigarro para fora da janela. Sorri para dentro de mim. Amanhã a vizinha de baixo vai-se queixar outra vez dos cigarros e da roupa estendida suja. Era a minha mãe, com os olhos entreabertos e o cabelo escuro cuidadosamente apanhado num rabo-de-cavalo.
-Ash, são 4 de manhã! O quê que estas a fazer sentada na janela? Vai dormir. – disse ela sem sequer suspeitar do cigarro, nem suspeitar do facto de jamais conseguir adormecer. O vazio estava demasiado presente.
- Sim, sim mãe. Tive só um pesadelo, já vou dormir. – sorri. Quando ela voltou ao seu quarto, tirei mais um cigarro do maço. Será uma longa noite.
Nenhum comentário:
Postar um comentário